É um pecado uma animação ser apenas o que ela deve ser em sua essência? Única e exclusivamente uma animação, em um mundo no qual temos, desde sempre, animações que se propõem a discutir assuntos muito mais densos como a morte dos pais (Bambi e Rei Leão), o processo de envelhecimento (UP – Altas Aventuras), o impacto do homem sobre o meio ambiente (Wall-E)? Pecado, realmente não é. Agora, que a discussão e a própria obra fica um tanto rasa, fica. Ou não?
Essa animação do brasileiro Carlos Saldanha, um dos desenhistas tupiniquins mais bem sucedidos no cinema de animação é uma grande homenagem ao Brasil e o Rio de Janeiro. E, justamente por assim ser, adota uma abordagem bem leve da nossa sociedade, desenvolvendo poucas vezes, e sempre de forma cômica, questões mais pesadas como o tráfico de aves raras. Não há dúvida de que essa é uma temática um tanto complexa de ser trabalhada em uma animação, e justamente por isso Saldanha não se preocupa em desenvolver a contento a mesma. O tráfico de aves raras serve apenas como uma pequena base, um pequeno contexto que justifica a transposição dos personagens principais que se encontravam na América do Norte para o Brasil. E é justamente nesse processo de vinda dos personagens que reside a primeira falha do filme.
Logo no início somos apresentados aos personagens principais. A dona de uma livraria, chamada Linda, que tem uma relação de amizade com seu bicho de estimação, uma arara azul de nome (Blu). É muito interessante ver como se desenvolve a rotina dos dois personagens, para vermos o quanto o animal foi humanizado nesse filme. Manias e vontades e muitos outros sentimentos humanos são vistos na ave, o que denota uma interação íntima do animal com o seu dono. Mas, tudo cai por terra quando um cientista brasileiro chega de supetão e convence muito facilmente que Linda deve ir com ele para o Rio de Janeiro para que Blu possa acasalar com uma fêmea de sua mesma espécie, pois os dois são os últimos que se tem notícia de existirem. E em menos de 10 minutos Linda é convencida e mudar de “mala e cuia” para o Rio de Janeiro, como se ela não tivesse uma vida para levar.
E então, somos transportados para o Rio de Janeiro. EM PLENO CARNAVAL Sinceramente, isso foi difícil demais de engolir. Como assim um cientista vai para a América do Norte buscar uma ave rara para que a mesma acasale com uma fêmea de mesma espécie e traz a mesma durante o período do carnaval? Aí o Saldanha e seus SEIS roteiristas forçaram a barra demasiadamente. E, daí pra frente tudo é forçado, equivocado, lugar comum e previsível. As araras são presas, depois conseguem fugir, se perdem, são ajudadas por personagens engraçadinhos, se apaixonam uma pela outra e voltam para seus donos (que no meio desse caminho todo se apaixonaram um pelo outro também). Não tem nada a comentar mais, né?
Pelo menos, uma coisa é fato em Rio. A qualidade da animação é fantástica. Cores vivas, perfeição de movimentos e tal. Mas, nem dá pra considerar isso uma grande qualidade, frente as falhas e previsibilidades absurdas que diminuem o mérito do filme.
